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Por que alguns corredores têm um apagão mental após treinos longos?

Após um treino longo e intenso, muitos corredores relatam uma sensação curiosa: além do corpo exausto, surge uma espécie de “apagão mental”, como se o cérebro se desconectasse do restante do corpo. Esse fenômeno, vai muito além do simple

SAÚDE
Exames e segurança

 - 4 minutos de leitura

Por que alguns corredores têm um apagão mental após treinos longos?

Após um treino longo e intenso, muitos corredores relatam uma sensação curiosa: além do corpo exausto, surge uma espécie de “apagão mental”, como se o cérebro se desconectasse do restante do corpo. Esse fenômeno, vai muito além do simples cansaço, trata-se de uma resposta fisiológica complexa do sistema nervoso central.

Dr. Otávio Morais, médico endocrinologista esportivo do Instituto Nutrindo Ideais, explica que esse apagão é uma desconexão entre corpo e cérebro. “Ocorre quando o sistema nervoso central entra em modo de economia extrema, reduzindo a capacidade de foco, memória e até de percepção do esforço”, diz ele.

De acordo com o médico, é como se o cérebro acionasse um botão de emergência: “Preciso me desligar para proteger o corpo”. Os sintomas? Dificuldade para pensar, esquecimento, lentidão mental e até uma sensação de vazio logo após o treino.

Durante a corrida, o cérebro compete com os músculos pela glicose, o açúcar no sangue. Quando acaba a energia nos músculos e no fígado, o cérebro também fica sem combustível. Além disso, aumentam substâncias inflamatórias no corpo e caem os neurotransmissores, como dopamina e serotonina, que regulam o foco e a motivação. 

Quando o cérebro “se come”

Um estudo de 2024 descobriu algo interessante: quando falta energia, o cérebro pode degradar temporariamente a mielina (a capa protetora dos nervos) para usar como combustível. É um mecanismo de sobrevivência extremo que ajuda a explicar por que a névoa mental pode ser tão forte.

Para testar essa hipótese, cientistas realizaram exames de ressonância magnética no cérebro de dez participantes (oito homens e duas mulheres, com idades entre 45 e 73 anos), utilizando uma técnica especial que mede a fração de água da mielina (MWF). A MWF é um marcador validado que reflete a quantidade de mielina presente em diferentes regiões do cérebro. 

Os corredores (que completaram a Maratona de Valência ou a Maratona de Trilha Zegama-Aizkorri) foram submetidos a escaneamento em quatro momentos distintos:

48 horas antes da corrida
24 a 48 horas depois
2 semanas depois
2 meses depois

Volumes (projeção de intensidade média) de mapas MWF de cinco cortes coronais consecutivos centrados nas vias motoras descendentes de um indivíduo antes da maratona

Nos exames realizados entre 24 e 48 horas após a corrida, os pesquisadores segmentaram o cérebro em cinquenta regiões de substância branca (rica em mielina) e descobriram que, em 12 dessas regiões, a fração de substância branca (MWF) havia diminuído. Isso indicou uma redução temporária no conteúdo de mielina. As maiores quedas, de 28% e 26% respectivamente, ocorreram em áreas que auxiliam no movimento e na coordenação, no processamento de sentimentos e informações sensoriais. 

Notavelmente, os pesquisadores descartaram a desidratação e outros fatores de confusão como possíveis causas da queda nos níveis de mielina. Os níveis se recuperaram gradualmente ao longo do tempo, apresentando melhorias na avaliação de referência após duas semanas e retornando aos níveis basais em todos os corredores na avaliação de acompanhamento após dois meses. 

O papel da alimentação

A nutrição é fundamental. Otávio explica que, quando o corredor não se alimenta direito antes e depois do treino, o cérebro é o primeiro a sentir. A falta de carboidratos causa queda de açúcar no sangue, e desidratação reduz o fluxo sanguíneo cerebral. Déficits de magnésio, sódio, potássio e vitaminas do complexo B pioram tudo ainda mais.

Como evitar o apagão?

“É preciso treinar o cérebro com a mesma dedicação aplicada ao corpo”, enfatiza o endocrinologista.
As principais recomendações são:

  • Nutrição: Carboidratos de qualidade antes e depois dos treinos longos, no momento certo.
  • Hidratação: Água com eletrólitos, não só água pura.
  • Suplementação: Adaptógenos e aminoácidos como L-tirosina, taurina e acetil-L-carnitina podem ajudar.
  • Sono: O cérebro se recupera durante o sono profundo, não no descanso passivo.


“O apagão é um sinal de que o corpo e o cérebro estão pedindo equilíbrio. Cuidar do sistema nervoso central é tão importante quanto fortalecer os músculos e essa é a nova fronteira da medicina esportiva moderna.”

Referência: The Neuroscience of Brain Fog After Long Runs

Fonte: Webrun

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