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Por que precisamos falar sobre o mal súbito na corrida.

Nos últimos anos, tenho percebido algo diferente no ar, mas isso sempre aconteceu — nós é que não víamos

SAÚDE
Exames e segurança

 - 6 minutos de leitura

Por que precisamos falar sobre o mal súbito na corrida.

Nos últimos anos, tenho percebido algo diferente no ar.

A cada novo episódio de mal súbito em provas, cresce a sensação de que “isso tem acontecido com mais frequência do que antes”.

Mas será que realmente aumentou? Ou será que estamos vivendo algo mais profundo — e bem mais silencioso?

Algo que não é sobre o risco em si, mas sobre como nós enxergamos esse risco.

É aqui que entra um conceito essencial para entendermos esse momento do esporte:

O Paradoxo da Visibilidade.

E o que chamo aqui de “Paradoxo da Visibilidade” não é um termo solto.

Ele aparece na sociologia, nos estudos de mídia e nas teorias de percepção de risco.

Em poucas palavras, significa que:

Quanto mais exposto um fenômeno é, mais frequente ele parece — mesmo que sua incidência real permaneça estável.

É a lógica que Bauman já descrevia na modernidade líquida e que a teoria da Amplificação Social do Risco reforça:

A informação corre mais rápido que os fatos — e a percepção corre mais rápido que a realidade.

Na corrida, isso ficou evidente.

Os casos não aumentaram na mesma proporção em que aumentaram os celulares ligados, os stories, as postagens, os comentários e as narrativas.

E isso não vale só para o mal súbito.

Temos visto a mesma distorção em aspectos de comportamento, ego, performance e pertencimento — como bem mostrou a matéria da Máquina do Esporte “Correr junto, mas sozinho”.

Hoje, tudo se amplifica.
Tudo se espalha.
Ganha uma escala emocional e social maior do que antes.

O esporte continua o mesmo.
O que mudou fomos nós — e o tamanho do impacto.

Sempre aconteceu — nós é que não víamos

Quando fundamos a Ticket Sports, lá atrás, era tudo diferente:

  • menos provas,
  • menos atletas,
  • pouca cobertura digital,
  • poucos influenciadores,
  • e uma viralização bem discreta.

Se algo acontecia numa prova, ficava restrito àquele dia, àquela cidade, àquele grupo de corredores.

Quase ninguém mais ficava sabendo.

Hoje, não.

Hoje um episódio acontece às 7h12 e às 7h16 já está em dezenas de timelines.

E é isso que cria a sensação de que “acontece mais”.

Mas é a visibilidade que aumentou — não necessariamente a incidência.

Esse é o paradoxo, que trago para discussão.

E entender isso é fundamental para tirarmos a culpa das pessoas erradas e colocarmos a responsabilidade no lugar certo.

Porque os dados mostram outra realidade

O risco continua extremamente baixo.

Estudo com 29,3 milhões de finishers nos EUA (2010–2023):
– 176 paradas cardíacas
– incidência: 0,54 por 100 mil
– mortalidade recente: 0,20 por 100 mil

Portugal: 0,39 por 100 mil
Meta-análises internacionais: 0,75 a 2,0 por 100 mil

Aplicando ao cenário Ticket Sports — com quase 3 milhões de inscrições estimadas para 2025 e grande parte do market share do mercado:

Estamos falando de em média 6 casos anuais.

E claro, não é pouco, porque as vidas sempre importam mais.

Mas também não é um fenômeno explodindo — é algo que sempre existiu e que hoje simplesmente é visto mais rápido e por muito mais gente. Faz sentido?

Como atleta, vejo o quanto ainda precisamos fortalecer a cultura de prevenção

Eu faço meus exames.
Acompanho meus históricos.
Cuido periodicamente da minha saúde.

Mas converso com organizadores, atletas e stakeholders todos os dias e vejo o quanto para muitos isso ainda não é rotina:

  • não sabem por onde começar,
  • não lembram de renovar exames,
  • não têm acompanhamento,
  • não têm referências,
  • não têm o hábito,
  • não têm educação para isso.

E cultura, não é algo que se impõe.

Cultura se constrói.

E se constrói com exemplos, com diálogos, com repetição, com cuidado e com líderes puxando o assunto — sem medo.

Olhando para outros países — inspiração, não imposição

Na América Latina vemos posturas diferentes:

  • Buenos Aires e Córdoba exigem apto médico,
  • México solicita certificado em várias provas oficiais,
  • Peru também adota o modelo em alguns eventos.

Esses modelos funcionam para esses mercados.

Mas aqui sigo acreditando:

Obrigar não é o caminho.
Educar é o caminho.

Obrigação gera resistência.
Educação gera consciência.
Consciência gera autonomia.
E a autonomia salva vidas.

O que quase ninguém vê: a perspectiva humana dos organizadores

Existe um lado invisível nessa conversa:


o impacto emocional que um episódio de mal súbito causa no organizador.

A cobrança sobre ele é imensa.

E quem está do lado de fora muitas vezes não percebe o quanto essa responsabilidade pesa.

O organizador cuida de tudo:

  • percurso,
  • logística,
  • hidratação,
  • equipe médica,
  • ambulâncias,
  • staff,
  • segurança,
  • experiência,
  • patrocinadores,
  • comunicação,
  • e a vida de milhares de pessoas num único dia.

Quando algo acontece — mesmo com tudo preparado — aquilo dói.

Dói antes de qualquer manual técnico.
Dói porque envolve gente.
Dói porque envolve histórias reais.

E é por isso que esse diálogo importa.
Não por culpa —
mas por humanidade.

Mal súbito: causas reais, sem alarmismo

O professor Valdir Braga do Canal no Corrida & Performance explica muito bem:

1. Fatores genéticos silenciosos

– arritmias
– cardiomiopatias
– predisposições hereditárias

2. Estilo de vida desorganizado


– sono ruim
– álcool
– estresse
– alimentação
– rotina desgastada

3. Correr acima da capacidade real


– ego
– falta de progressão
– ritmo acima da preparação

4. Estimulantes e anabolizantes

– excesso de cafeína
– pré-treinos estimulantes
– testosterona
– esteróides e drogas ilícitas

Nota especial aos organizadores:

– importância dos organizadores integrarem este tema com sua equipe médica.

Na era da superexposição, qual é o papel do organizador?

Não é:

✘ prever riscos invisíveis
✘ diagnosticar atletas
✘ carregar culpas impossíveis

É:

✔ orientar
✔ educar
✔ comunicar
✔ treinar equipes
✔ estruturar resposta ágil
✔ estimular cuidado prévio
✔ construir cultura
✔ liderar pelo exemplo

Isso já é gigante.
E já faz diferença.

E no final de tudo, levo comigo três frases

Depois de tantos anos dentro desse ecossistema, convivendo com atletas, organizadores, federações, entidades e profissionais do esporte, aprendi algo que carrego comigo:

Quem cuida, cresce.
Quem educa, transforma.
Quem assume o tema, lidera.

E esse tema — o cuidado com a saúde na corrida —
É exatamente o tipo de assunto que exige líderes dispostos a assumir a conversa.

Sem medo.
Sem tabu.
Com maturidade.
Com responsabilidade.
E com amor pelo esporte.

A corrida continua sendo um dos esportes mais seguros, democráticos e transformadores que existem.

Mas ela merece ser tratada com a profundidade que o momento exige.

Se conseguirmos, juntos, construir uma cultura de prevenção, educação e respeito, então estaremos garantindo algo maior que segurança:

Estaremos garantindo longevidade para o esporte e para as pessoas que vivem dentro dele.

Referências que inspiraram esta reflexão

Professor Valdir Braga — Canal Corrida & Performance
Morte Súbita em Corredores: O Que Está Por Trás Desse Risco?
https://www.youtube.com/watch?v=vhDpkKhP-cs&t=11s

Máquina do Esporte
Correr junto, mas sozinho: o novo paradoxo da corrida
https://maquinadoesporte.com.br/analise/correr-junto-mas-sozinho-o-novo-paradoxo-da-corrida/


Fonte: Ticket Sports